A Petrobras foi fundada em 1953 pelo governo Getúlio Vargas, após a mobilização “O petróleo é nosso”, que polarizou o Brasil entre “nacionalistas” e “entreguistas”. Hoje é a maior empresa brasileira, seja em produção de riqueza, patrimônio líquido ou pagamento de tributos. Mais que isso, a companhia é responsável por encontrar, extrair e refinar matérias-primas indispensáveis ao desenvolvimento econômico e ao bem-estar da população: petróleo e gás natural, que correspondem a mais da metade da matriz energética mundial

Tais operações foram realizadas em regime de monopólio estatal até 1997, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) liberou o setor
para empresas privadas e multinacionais.

Em 2000, o governo tucano abriu o capital da Petrobras para acionistas da bolsa de valores de Nova Iorque. Meses depois, a empresa chegou a anunciar mudança de nome para PetroBrax, que supostamente facilitaria a internacionalização da marca, por conta da pronúncia. Em menos de dois dias, após reação negativa da sociedade e do movimento petroleiro, por pressão parlamentar, a direção da empresa acabou recuando do projeto.

Presidente da Petrobras à época, o banqueiro francês Henry Philippe Reichstul declarou, em entrevista ao programa Roda Viva, em oito de maio de 2000, que as decisões de abertura da companhia foram .“decisão de governo, da sociedade brasileira de promover uma abertura, uma globalização, uma maior inserção do Brasil na economia internacional”.. O objetivo era caminhar rumo a um “regime de plena concorrência” e à “abertura total do setor”.

Reichstul, que havia sido militante Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), seguia a cartilha do neoliberalismo, em alta no governo tucano de FHC.  “O fato de você ter outros investidores procurando petróleo, gás, atuando no mercado de energia, eu acho que é bom para o país”., defendeu. Quanto à privatização, Reichstul disse levar em conta a resistência da maioria da população. “Acho que seria um ônus político muito grande ao governo privatizar essa companhia neste momento que a gente está vivendo agora. Eu acho que não existe uma maturidade hoje, no sentido de uma clareza de que ela precisa ser privatizada”.

Dois dos piores acidentes da história da Petrobras aconteceram na gestão de Reichstul. A maior plataforma produtora de petróleo do mundo, a P-36, afundou na baía de Campos, causando a morte de 11 petroleiros. O outro episódio foi o vazamento de cerca de 4 milhões de litros de óleo no Rio Iguaçu, no Paraná.

O presidente da Associação de Engenheiros da Petrobras (Aepet), Felipe Coutinho, acredita que a abertura de ações nos Estados Unidos deve ser revista, pois sujeita a empresa estatal a regulações e interesses de outros países e agentes privados. .“Com a quebra do monopólio e, especialmente, quando a Petrobras botou ações na bolsa de Nova Iorque, o Brasil abriu mão da soberania sobre sua principal empresa, a maior empresa do Brasil, mais estratégica. Com ações negociadas em Nova Iorque, ela submete seu funcionamento às leis dos Estados Unidos, às normas da bolsa de valores dos Estados Unidos, sujeita a interpretação de juízes e acusações de promotores dos Estados Unidos. Então, na verdade, teria que ser revertido”., advoga o engenheiro.

Da mesma forma, o especialista Paulo César Ribeiro Lima considera que, “se a gente quer que a Petrobras tenha política de Estado”, essas ações da bolsa americana precisam ser readquiridas pela companhia ou pelo governo federal. “Tem que começar com a bolsa de Nova Iorque, as ADR [American Depositary Receipt], mas acho que até mesmo no Brasil não devia ter ações na bolsa, não. Ter ações em bolsa complica, porque entra acionista minoritário, lei das S.A [Sociedades Anônimas]… Eu sou muito favorável em transformar a Petrobras em empresa pública”, afirma Ribeiro Lima.

Entre as cinco maiores petroleiras, por produção de óleo e gás, quatro são estatais: Saudi Aramco (Arábia Saudita), Gazprom (Rússia), National Iranian Oil Company (Irã) e Rosneft (Rússia). A exceção da lista, em quarto lugar, é a estadunidense Exxon Mobil. Conforme o ex-diretor da Petrobras e vice-diretor do Instituto de Energia e Ambiente da USP, Ildo Sauer, as empresas de controle majoritariamente estatal .“produzem cerca de 75% do petróleo global e detém cerca 90% das reservas provadas”..

Segundo pesquisa do Instituto da DataFolha, de maio deste ano, a maioria da população brasileira defende o caráter público da Petrobras, mesmo com os insistentes discursos de “rombo na Petrobras” e dos planos de “desinvestimento” da atual gestão. A sondagem aferiu que 55% dos brasileiros são contrários à privatização da companhia e 74% rechaça a venda para grupos estrangeiros.

Na campanha eleitoral, os presidenciáveis também
são questionados sobre os planos para a estatal,
em especial, quanto à política de preços.

O programa de governo de Lula (PT) defende a ampliação do parque de refino, a suspensão da venda em curso de ativos estratégicos e reorientação da política de preços da Petrobras, com foco no mercado interno. Jair Bolsonaro (PSL) quer manter o vínculo dos preços ao mercado internacional e defende que a .“Petrobras deve vender parcela substancial de sua capacidade de refino, varejo, transporte e outras atividades”..

Marina Silva (Rede) afirma ser contra a privatização da companhia, mas não detalha outras ações em seu programa. Ciro Gomes (PDT) defende a estabilidade de preços e o controle do Estado sobre as reservas de petróleo, inclusive, recomprando todos os campos de petróleo já vendidos. O plano de governo de Guilherme Boulos (PSOL) prevê a alteração da atual política de preços da Petrobras e a anulação dos leilões de petróleo efetuados.

Geraldo Alckmin (PSDB) apresentou um plano de governo de apenas 15 páginas, em que há não menções à Petrobras, assim como Meirelles (MDB) e Álvaro Dias (PODEMOS).

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