Política motiva escalada de violência?

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No último dia 8, quinta feira, foi encontrada uma carta intitulada “A doutrinação vai acabar. É o Mito, Ustra vive”, afixada nos quadros de avisos do campus Mata Norte da Universidade de Pernambuco (UPE). Contendo a assinatura “Os Soldados do Mito” e uma salada mista de clichês do tipo “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”, “O mito vem aí e a doutrinação vai acabar”, “vamos acabar com a doutrinação de Paulo Freire” e a “Doutrinação comunista”, a “Doutrinação Gayzista” e outras variações repetitivas do termo “Doutrinação”. A carta tinha um teor de intimidação com frases do tipo “todos os professores enganadores e doutrinadores […] terão que sair correndo”, assim como os “Gayzistas, comunistas e sapatão”. Cinco professores foram citados, assim como suas respectivas supostas áreas de doutrinação, tal como história e pedagogia, onde docentes “pregavam mentiras”, segundo os autores do “memorando”.

Dois dias antes, na terça feira, 6, começou a circular nas redes sociais a imagem de uma outra carta, dessa vez uma lista intitulada “Doutrinadores e alunos que serão banidos do CFCH – UFPE em 2019”. Essa foi deixada na sala do Diretório Acadêmico de História e lista 22 professores da instituição, sua área de atuação e um resumo de seus “crimes perante a moral e os bons costumes cristãos”, tais como “ser doutrinador”, “possuir um exército de viados, travecos, feminazes prostitutas e […] degenerados” e outras postulações semelhantes. No pé da nota, os dizeres em caixa alta: “VOCÊS SERÃO BANIDOS! ESCÓRIAS! O MITO VEM AÍ!”

Esses são apenas dois de uma longa série de relatos que surgiram nos últimos meses envolvendo ofensas, incitação ao ódio, apologia ao crime, ameaças, agressões e, consequentemente, assassinatos com teor ideológico e político, na maioria das vezes, pregando a intolerância contra grupos minorizados. Poderiam ser considerados casos isolados, mas basta uma pesquisa nos noticiários e na internet para se identificar padrão e recorrência. 

Mulheres têm sido atacadas ao se posicionar contrárias a Bolsonaro. Foto: Mídia Ninja.

Na madrugada de 12 de outubro, sexta feira, dia das crianças, uma estudante da UNIRIO foi atacada com socos no bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. Segundo relato da estudante publicado no Brasil de Fato, o agressor se aproximou xingando-a de “vagabunda”, “feminista de merda”, dizendo que “não era mulher de respeito por estar andando na rua àquela hora”, e que “o Bolsonaro vai acabar com isso”.

No início da noite de 9 de outubro, terça-feira, um estudante da Universidade Federal do Paraná (UFPR) foi agredido, próximo à reitoria da instituição, por quatro integrantes de uma torcida organizada, sob os gritos de “aqui é Bolsonaro!”. O motivo da agressão seria o boné do MST usado pela vítima.

Boné do Movimento dos Trabalhadores sem Terra virou motivo de agressão? Foto: José Eduardo Bernardes | MST.

Por volta das 19h30 do dia 8 de outubro, domingo, um homem de 36 anos invadiu uma seção eleitoral no bairro Warnow, em Indaial, para agredir um fiscal do PSL, partido de Jair Bolsonaro.

No dia 7 de outubro, data da votação do primeiro turno das eleições, uma mulher identificada como Julyana Rezende Ramos Paiva foi agredida com um soco no rosto após declarar voto em seu candidato, contrário ao do trio que a agrediu com socos e chutes.

Também no dia 7, uma cabo eleitoral do então candidato a deputado estadual Elenilton Dutra (Patriota, antigo PEN), registrou uma ocorrência contra o próprio candidato, por injúria, após ser xingada, por áudio do WhatsApp, de “lixo, vagabunda, traidora”. Isso se deu logo após a apuração dos votos, quando o candidato, derrotado, mandou um áudio bastante ofensivo para seus cabos eleitorais – e foi questionado pela vítima.

No dia 10 de outubro, o então candidato a presidente da república Guilherme Boulos, em discurso, que o MTST “ocupa terrenos improdutivo e a casa do Bolsonaro não parece muito produtiva”. O candidato, agora eleito, Jair Bolsonaro, tomou isso como uma ameaça. Boulos afirmou que era uma ironia. No dia 10 de setembro, em uma agenda de campanha em Rio Branco, Acre, Bolsonaro sugeriu “Fuzilar a petralhada do Acre“. Um pouco depois, afirmou que “era brincadeira”.

Foto: reprodução das mídias sociais.

Brincadeiras à parte, no dia 6 de setembro, sábado, Bolsonaro foi esfaqueado. O agressor, Adélio Bispo de Oliveira, dizia ter agido por ordens de Deus. No domingo, 8 de outubro, Mestre Moa do Catendê foi assassinado com 12 facadas.

Todos esses casos estão listados em uma plataforma online chamada Vítimas da Intolerância. O site, assinado pela Open Knowledge Brasil e Agência Pública, tem caráter colaborativo e busca reunir notícias que retratam agressões morais, físicas e homicídios relacionadas com o contexto das últimas eleições, sob a bandeira do livre acesso à informação e análise de dados. Qualquer um pode postar notícias no site, que não sofrem nenhum filtro de cunho partidário ou ideológico, como demonstram os relatos acima.  os critérios são apenas:

Não há filtro de caráter político ou partidário. Os critérios adotados para a compilação de casos são: “1 – Haver ao menos um registro publicado em veículo de notícia de circulação local ou nacional; 2 – Relatar caso de violência (física ou verbal) direcionada a uma pessoa (vandalismos no espaço público, por exemplo, não entram); 3- Haver no relato menções à motivação por intolerância política, seja ela direcionada a políticos em campanha ou eleitos, a partidos políticos ou a grupos minoritários”. A quantidade de notícias violentas postadas na plataforma faria inveja a qualquer jornal sensacionalista.

Um estudo recentemente publicado pela Fundação Getúlio Vargas mostra que comentários sobre agressões a gays, lésbicas e transexuais e outros casos de violência por motivação política geraram 2,7 milhões de postagens desde que 2º turno começou.

A ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) publicou no dia 8 de outubro um levantamento que registrava mais de 130 casos de violência contra jornalistas em contexto político-eleitoral.

O site Mapa da Violência, onde qualquer pessoa pode postar um relato de agressão de cunho político, de forma anônima ou não, já registra 241 entradas. O jornalista Haroldo Ceravolo criou um mapa no Google com casos de violência registrados desde o dia 1 de outubro. O mapa já tem 163 entradas, todas também embasadas por notícia de veículos noticiosos. O site Opera Mundi também fez o mapa dele, no qual quase não se vê o mapa de tantas âncoras azuis indicando casos semelhantes.

Diante de tantas informações, é possível notar que não são casos isolados, e há um crescimento visível na animosidade política do país. Ou, como disse o o candidato à presidência da República pelo PSOL, em 2018, Guilherme Boulos, “qualquer um que saiba juntar lé com cré, percebe”.

Num contexto de facadas ordenadas por deus e crimes cometidos em nome da moral cristã, é com imenso pesar que só resta dizer: o futuro a deus pertence.

Edição: Caru Schwingel.

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