Em tempos sombrios, Guerreiros da Floresta expõe conflitos indígenas

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Serra de Demini, aldeia Watoriki, lar do líder Yanomami Davi Kopenawa, em Roraima.

Guerreiros da Floresta” traz a defesa da sustentabilidade da Amazônia e da causa indígena pelo posicionamento de três líderanças da região Amazônica. Apresenta a visão de Davi Kopenawa, xamã dos Yanomamis com visibilidade internacional principalmente depois do livro “A queda do céu“. Seu território está entre os estados de Roraima e Amazonas, na terra indígena Yanomami. Davi Kopenawa manifesta seus valores, família, aldeia, caminhos e locais integrados ao entorno da floresta e as questões da sustentabilidade para povos isolados.

Davi Kopenawa, líder Yanomami, no primeiro episódio apresenta sua família e abre seu lar.

Demonstra o posicionamento de Almir Suruí, cacique dos Suruís, etnia localizada na região de Cacoal, em Rondônia, na terra indígena Paiter Suruí. Biólogo, Almir Suruí trabalha com um projeto de sustentabilidade para a região, com agricultura e agrofloresta, com planejamento para curto, médio e longo prazo, implementando um plano de sustentabilidade de 50 anos, que teve início em 2010. Os Suruís utilizam a tecnologia tanto para a agricultura quanto para a comunicação, associada aos conhecimentos ancestrais. Catalogam as árvores de seu território. “Quando morre uma árvore, toda a floresta sente. Nós sentimos”, afirma, reconhecendo os indígenas como os guardiães da biodiversidade brasileira.

Almir Suruí produz café premiado, com exportação para a Europa, parte do plano de sustentabilidade de seu povo.

E  revela a perspectiva de Ninawa Inu Huni Kuin, xamã de seu povo, da terra indígena Huni Kuin localizada no estado do Acre. Ninawa Inu foi o primeiro indígena a ter seu nome original reconhecido no registro civil, virou tese jurídica e garantiu que “Nome de índio é nome de gente“, título da dissertação do advogado que assumiu a causa. Ninawa Inu Huni Kuin é vice-coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Acre, Sul do Amazonas e noroeste de Rondônia e integra a Aliança dos Guardiões e Filhos Da Mãe Terra – criada em Paris, em 2015, na COP 21.

Ninawa Hin Huni Kuin lutou na justiça para tirar o nome do “dono” do seringal onde nasceu de seu registro.

“Este projeto nasce de um grande comprometimento com a causa indígena. E o resultado muito nos orgulha”, afirma Andrea Marranquiel, diretora e autora do roteiro que permite a três líderes indígenas contarem suas histórias. A escolha narrativa foi ousada, não há narrador, “não falamos, em cada bloco, sete, nove minutos, só uma pessoa contando a história, e esta pessoa é um índio”. A questão considerada pela diretora é a do protagonismo. Do porquê, em 2019, com os recursos tecnológicos e organizacionais das etnias e aldeias, com as formações e os diálogos estabelecidos, ser sempre o homem ou mulher brancos a contar a história.

A diretora e roteirista Andrea Marranquiel participa do Festival Katxanawa, na aldeia Pinuya, dos Huni Kuin, no Acre.

A fotografia impecável da série mostra beleza e degradação. O desmatamento da Floresta Amazônica, de acordo com o Instituto Imazon, aumentou 40% de agosto de 2017 a agosto de 2018. Um dia após a posse de Bolsonaro, máquinas de madeireiras invadiram a terra indígena de Arara, no Pará, e em janeiro de 2019, o desmatamento teve aumento de 54%  em relação ao ano anterior

A terra dos Suruí, em Rondônia, chegou a 86% de degradação pelo avanço das madeireiras e do agronegócio.

No lançamento de “Guerreiros da Floresta”, ocorrido em São Paulo, em 14 de fevereiro, as lideranças indígenas destacaram ações e o diálogo para o desenvolvimento social, tecnológico e produtivo. “Quem acha que somos contra os avanços precisam nos ouvir. Temos que discutir as propostas. Você pode produzir utilizando critérios, tanto na floresta como na agricultura, a partir de uma política sustentável de médio a longo prazo”, afirmou Almir Suruí. O envolvimento do povo Suruí com não-indígenas com a retirada de madeira e o garimpo ilegal, levou a uma devastação de 86% de seu território. Assim, em 2010, ele propôs um novo posicionamento para a sustentabilidade de seu povo, o Plano Estratégico de 50 Anos, com políticas de gestão para o território, relacionadas à agricultura, meio ambiente, cultura, educação, saúde e economia.

Lançamento da série no Reserva Culltural, em São Paulo, com a presença dos líderes Suruí e Huni Kuin.

A sustentabilidade dos povos da floresta passa por sua espiritualidade. “Temos a segurança de nossa fé”, disse o líder Huni Kuin, Ninawa. A conexão dos povos indígenas com o sagrado, com a sacralidade da terra é o que os sustenta. É desta comunicação com os elementos da floresta que advém sua força: “Esta é uma luta pelos animais, pelos rios, por tudo que é sagrado em nossa tradição. Nos comunicamos com os seres sagrados, com as plantas e os animais. Temos a água, o fogo, a terra e o ar, mas a essência de tudo isso é invisível. É a nossa espiritualidade”.

Preparativos para ritual Yanomami.
Festival Katxanawa dos Huni Kuins, guardiães de conhecimentos ancestrais.

A série, produzida pela Santa Rita Filmes, possui 13 episódios de 26 min cada, e pode ser vista no Canal Futura, no ar de 20 de fevereiro a 15 de março. O produtor Marcelo Braga destacou: “A série estreia num momento de transição política dos mais importantes de nossa história recente. Esperamos que os temas aqui abordados, promovam, de alguma forma, um debate consciente e tão necessário para as demandas indígenas e a relação harmoniosa entre todos os povos”.

Muitas aldeiais Yanomamis preferem permanecer isoladas para manutenção de sua cultura.

No contexto político atual, Guerreiros da Floresta buscará levar à comunidade internacional aos conflitos que ameaçam a Floresta Amazônica e os povos indígenas, em festivais e parcerias com canais de televisão.

Fotos: Divulgação Santa Rita Filmes

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