Fome no Brasil: os roncos de uma nação

Em 2017, cerca de 5,2 milhões de brasileiros passaram fome no país

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Desemprego e economia informal cresceram no Brasil nos dois últimos anos, após destituição da Presidenta Dilma | Foto: Victor Martins
Por Lorena Caldas e Matheus Souza

A fome que assola a nação brasileira é muitas vezes associada a regiões ou fenômenos climáticos como a seca. Porém, fatores como a dificuldade de democratização ao acesso de terras, à produção e distribuição dos alimentos são determinantes para o acesso.

A fome hoje é um problema multifatorial que afeta 821 milhões de pessoas em todo o mundo. Em 2017, cerca de 5,2 milhões de brasileiros passaram fome no país.

No Brasil, o pior período da fome aconteceu na década de 1980, no qual 40% da população viviam em extrema pobreza, sem ter o que comer ou que não ingeriam a quantidade mínima necessária para uma alimentação adequada, apresentando problemas de nutrição.  A situação inspirou Josué de Castro a mapear as principais carências nutricionais no Brasil e publicar o clássico Geografia da Fome no Brasil.

Apenas a partir de 2003, com a criação do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), foram promovidas ações e políticas públicas em combate à pobreza e à situação da fome no país. Em 2014, após a diminuição do número de pessoas subalimentadas, o Brasil conseguiu deixar o mapa da fome da Organização das Nações Unidas (ONU), onde estão países com mais de 5% da população que ingere menos calorias diárias do recomendável. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de brasileiros em situação de desnutrição crônica caiu 82% entre 2002 e 2013. Contudo, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), que divulga em parceria com outras agências do sistema da ONU periodicamente o Mapa da Fome no Mundo, publicou em 2017  relatório que indicava a fome ter voltado a crescer pela primeira vez em 15 anos, inclusive na América Latina. No mesmo ano, entidades da sociedade civil preocupadas com a possibilidade da fome voltar a assombrar as famílias brasileiras mais vulneráveis, devido à crise econômica, ao desemprego crescente e à redução dos gastos dos programas de proteção social, entregaram relatório a FAO alertando para a possibilidade do retorno do Brasil ao mapa indesejado da fome.

O Mapa da Fome de 2018, publicado pela FAO e outras quatro agências do sistema ONU no dia 11 de setembro, analisou os dados de 2015 a 2017 e apresentou o Brasil com índice menor de 2,5. De acordo com a entidade, o combate à fome estagnou no Brasil, em 2017 havia menos de 5,2 milhões de brasileiros passando fome. Em 2014, essa taxa era de menos de 5,1 milhões; em 2012, foram 5 milhões. Já em 2010, foi o ponto mais baixo, quando menos de 4,9 milhões de brasileiros foram considerados desnutridos. Os números atuais distam da realidade de 1999, quando 20,9 milhões de brasileiros passavam fome. Em 2004, esse volume havia sido reduzido para 12,6 milhões e, em 2007, para 7,4 milhões.

O relatório de 2018, porém, indicou o crescimento da fome em todo o mundo. O número de pessoas subnutridas passou de 804 para 821 milhões entre 2016 e 2017. Um dos objetivos da FAO seria um mundo sem subnutrição a partir de 2030, porém mediante tais resultados a agência já revê a meta.

A fome volta a assombrar o mundo, demonstra Mapa da Fome de 2018. Apesar do aumento da pobreza nos últimos dois anos, Brasil se mantém fora do Mapa. Foto: Victor Martins.

Quando o de cima sobe e o de baixo desce

Em 2017, após três anos da saída do Mapa da Fome, índices passaram a apontar para uma possível volta ao grave cenário da miséria e fome extrema no país. Algumas das causas indicadas no relatório entregue pelas entidades civis às Nações Unidas foi o aumento do desemprego nas capitais e grandes centro urbanos, o corte de beneficiários de programas sociais como o “Bolsa Família” e o congelamento de gastos públicos para superar a crise financeira na qual o Brasil se encontra, com dívida externa, públicas e uma economia estagnada.

Desemprego e economia informal cresceram no Brasil nos dois últimos anos, após destituição da Presidenta Dilma. Créditos: Victor Martins

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) classifica a fome em três níveis de insegurança alimentar: o leve, onde a preocupação mora na quantidade e não qualidade; a moderada, onde existe limitação na quantidade de alimentos e a grave, na qual existe a fome decorrente da real falta de alimentos. O Nordeste do Brasil segue como a região onde o problema é mais grave, em seguida vem a região Norte; onde Maranhão, Piauí, Amazonas e Pará se destacam pela dificuldade de alimentação adequada.

Para o economista Eduardo Oliveira, o grande problema está nas políticas exportadoras, o congelamento de gastos sociais e o desemprego, no qual 3,4% da população economicamente ativa, aproximadamente 13 milhões de brasileiros, encontram-se desempregados. “O que acaba favorecendo esse retorno ao Mapa da Fome é a predileção por política primária exportadora, onde se tem um orçamento em função do agronegócio, voltada para o exterior. Então, essa política de predileção vem desviando recursos da agricultura familiar, e consequentemente, contribuindo para que o país deixe de estar produzindo alimentos de forma suficiente e de qualidade na perspectiva de soberania e segurança alimentar para toda a sua população”, pontua o economista.

O documentário Histórias da Fome no Brasil, idealizado pelo presidente da Ação da Cidadania,  Daniel de Souza, apresenta cronologicamente como a fome perpassou o país, desde o Brasil colônia até as recentes políticas públicas que o levaram a sair do Mapa da Fome.


A dor da inacessibilidade

Mariana Saturnino, 33 anos, três filhos entre 10 e 18 anos, reside no município de Prata do Piauí, centro-sul do estado, conta que desde 2003 recebe auxílio no programa Bolsa Família e que sua entrada no Castrado Único do Governo Federal melhorou significantemente a situação da família, além da questão da fome que antes passava. “Melhorou e muito a minha situação financeira, eu passava muita fome aqui com minha família. Nós nos sustentávamos com pequenos bicos e diárias que podíamos fazer de vez em quando. E quando veio o Bolsa Família, melhorou a situação de miséria na qual vivíamos, dando até para comprar diariamente alimentos necessários para nossa sobrevivência, se fôssemos comparar com antigamente”, diz.

Piauí é um dos estados que teve melhoria de qualidade de vida com programas sociais. Guaribas, cidade de lançamento do Programa Fome Zero, era a cidade mais pobre do Brasil há 15 anos. Foto: Victor Martins.

Práticas como doações e distribuições de alimentos a pessoas carentes podem auxiliar para que este problema social não se agrave. É o caso dos mercados municipais de alimentos no estado do Piauí, que recentemente abriram novas possibilidades para a abertura de parcerias com órgãos beneficentes que realizam trabalhos voluntários.

Janice Lustosa, técnica operante na administração do recente Banco de Alimentos (BA) da Nova Ceasa de Teresina, é responsável pela separação e distribuição de frutas, verduras e legumes para organizações credenciadas de doações de alimentos. Diz que esse tipo de iniciativa apenas é possível em poucos estados brasileiros: “O Banco de Alimentos (BA) funciona articulado com unidades de comercialização (permissionários da Nova Ceasa) para o recebimento de doações de alimentos fora dos padrões de comercialização, mas sem nenhuma restrição de caráter sanitário. Ou seja, são produtivamente sem valor comercial, mas não comprometeram seu valor nutricional e, portanto, são próprios para o consumo humano”.

Lustosa ressalta os critérios necessários para este banco de alimentos na Nova Ceasa, que diariamente vende frutas e verduras na cidade de Teresina. “A instituição precisa estar legalizada, ter CNPJ, estatuto social, projetos que justifiquem a necessidade de atendimento e tenham relação com segurança alimentar e nutricional. A Nova Ceasa abriu um edital com esses critérios, 87 instituições se inscreveram, 20 foram selecionadas. Esse é o primeiro Banco de Alimentos do Piauí, e no Brasil nessa mesma modalidade são oito no total. Os alimentos arrecadados são variados, de acordo com a doação dos permissionários, mas em geral estão relacionados a categoria das frutas, legumes e verduras”, finaliza.

O acolhimento dos invisíveis

Apesar dos muitos problemas que o Brasil enfrenta devido à fome e a pobreza de sua população, há outro lado que precisa ser destacado: o que acolhe e resiste. São muitas as ONGs (Organizações Não Governamentais), coletivos e grupos de pessoas que destinam um pouco do seu tempo e recursos para quem necessita. São ações filantrópicas que lutam diariamente pelo direito à alimentação, cuidados, saúde, educação e – também – simplesmente pelo poder de um abraço.

Teobaldo Santos, 22 anos, integrante do grupo de jovens Rotaract, da zona leste de Teresina, que objetiva ser um grupo humanitário que desenvolve ações para melhorar o mundo por meio de patrocínios de outro grupo, o Rotary, diz que uma dessas ações é a distribuição de alimentos para comunidades em situação de pobreza. Eles distribuem alimentos para comunidades que residem em algumas localidades no estado do Piauí.

“Em alguns tempos, realizamos doações de kit básicos de alimentos, e escolhemos por questão de situação financeira. Algumas famílias e comunidades que necessitam desses alimentos ou pessoas que vem por meio da instituição atrás de ajuda, como aconteceu uma vez. Uma família de Timon, no Maranhão, estava necessitando de muita ajuda, pois existiam mais de seis crianças em situação de fome e necessidade. Então, nós do Rotaract realizamos a doação de seis cestas básicas de alimentos para esta família”, conta.

O grupo ainda realiza outras atividades, como práticas educativas e brincadeiras com crianças que possuem poucas possibilidades de lazer e recreação. “Ano passado realizamos pequenas brincadeiras e distribuição de cachorro-quente para as crianças de uma comunidade carente no município de Teresina. Eles não têm muitos recursos para comprar ou até mesmo fazer receitas como essa em casa, portanto, fazer isso foi muito gratificante”, ressalta Teobaldo Santos.

Outro coletivo que se dedica a causas sociais em Teresina é o Eu Quero Ajudar. O grupo atua em toda a capital com ações em praças e hospitais de Teresina. Priscilla Jacó, idealizadora da iniciativa, conta que sempre fez parte de ações solidárias juntamente com sua família, mas que foi no Natal de 2012 que o coletivo iniciou sua programação, distribuindo macarronada como ceia de Natal para pessoas em situação de rua e carentes: a Natalrronada. “Após esse evento, percebi que as carências se sobrepunham às carências do alimento. E essa necessidade se estendia durante o ano todo, e não só do alimento em si, mas de falar de como foi seu dia, da saudade dos familiares. Então resolvemos estender essas atividades que agora acontecem todos dos dias da semana, com exceção do sábado”, conta.

O grupo atua em diversas praças de Teresina com a distribuição de alimentos, roupas e atividades interativas. Mas também busca agir e acolher acompanhantes de pacientes hospitalizados. “Muitos viajam para acompanhar um ente querido e não têm condições financeiras de se alimentar e se sustentar na capital”, comenta Priscilla Jacó.  “A fome é muito mais comum do que imaginamos. Mas creditamos que o pouco que fazemos já muda o dia de uma pessoa que, às vezes, dormiria sem se alimentar, assim como muda o sentimento dessa pessoa para com o mundo. Então, acho que cumprimos nossa missão quando tiramos um pouco do nosso tempo e um mínimo do que temos para dividir com essas pessoas”, finaliza.

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