Da resistência à persistência: o afroempreendedorismo no DF

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Feira Coisa de Preto. Foto: Reprodução/Facebook
Ana Julia Tolentino

Depois de 130 anos da abolição da escravatura, a população negra ainda sente na pele o racismo e tenta conquistar espaço no mercado de trabalho. Mesmo com os avanços legislativos e o fortalecimento dos movimentos sociais e identitários, o racismo estrutural no Brasil se impõe com uma barreira para o negro ter acesso a empregos rentáveis.

Com apenas 8,8% da população com mais de 25 anos e com ensino superior, a falta de acesso a um dos direitos fundamentais – a educação – gera dificuldades que fazem com que os negros se sujeitem a salários menores e poucas oportunidades de se inserirem no mercado de trabalho tradicional. Com isso, o empreendedorismo, como fator decisivo no desenvolvimento social e econômico do país, explora um ramo de negócios variados que podem ser autossuficientes.

Essa prática cresce constantemente, sobretudo quando diz respeito à população negra. Submetida ao mercado informal, diante de um índice de desemprego de mais de 60%, os negros encontram uma forma de sobrevivência, mas também de reafirmação identitária no afroempreendedorismo.

Moda, gastronomia, artesanato e cultura no geral se entrelaçam – em suas próprias essências – a uma ideologia com proposta de engajamento que reafirma a raiz africana. “A gente precisa de muito além de salões afros para que possam firmar a identidade negra em negócios próprios, é fundamental que enxerguemos em todos os âmbitos as nossas raízes inerentes”, afirma Elaine Meireles, historiadora e especialista em Gestão Pública.

Outro fator interessante é que o empreendedorismo serve como canal para gerar discussões sobre assuntos de extrema relevância, como a inserção social, o racismo e o empoderamento. “[O afroempreendedorismo] Pode ser uma oportunidade também para reparar os crimes decorrentes da escravidão que até hoje desencadeiam desigualdades raciais no país, e por meio das políticas públicas em prol do empreendedorismo negro, pode ser reforçado a identidade racial e o combate ao racismo”, diz Lineker Teixeira (foto), estudante de Administração da Universidade de Brasília (UnB) e integrante do coletivo Afrobixas.

Lineker Teixeira é integrante do coletivo Afrobixas.

RESISTÊNCIA

Atualmente, o negro empreende como forma de luta, ultrapassando as fronteiras da subsistência e buscando aprimorar as suas habilidades. Entretanto, é indispensável frisar que a busca da independência criativa, dentre outros fatores, não negligencia a luta pela relevância no mercado de trabalho. O empreendedorismo afro deve ser visto nesse contexto como mais uma ferramenta de busca e também uma efetiva democracia racial.

Dentre grandes formas de resistência, o coletivo Afrobixas é um grupo de militância social surgido na Universidade de Brasília (UnB), e sua pauta de trabalho gira em torno de um posicionamento político de enfrentamento do racismo e da homofobia. Como ponto de partida do curta-metragem “Afronte”, dos diretores Bruno Victor e Marcus Vinicius, o Afrobixas apresentou um perfil de negro gay que se centraliza principalmente na periferia do DF, nas regiões administrativas e no entorno.

Coletivo Afrobixas se posiciona e luta contra o racismo e a homofobia.  Foto: Pedro Lacerda

O curta nasceu de uma inquietação dos dois diretores e até então estudantes do curso de Audiovisual da UnB, por sentirem ausência de vozes negras e gays no cinema e no meio universitário. “Os negros passaram a frequentar a universidade há pouco tempo. Alguns movimentos saem da periferia e vêm para a universidade ou continuam em suas localidades”, enfatiza Victor, integrante do Coletivo.

No filme, os personagens – alguns deles integrantes do coletivo – estão sempre em movimento, se deslocando pelas regiões do DF. Essa sensação de não parar traduz dois sentimentos: o primeiro é a dos longos períodos de viagem devido à distância entre os lugares onde vivem e precisam chegar; a segunda é a raridade dos locais em que podem desfrutar da liberdade. “Esses encontros vão quebrando uma série de padrões. Existe um modelo do negro masculino que predomina no movimento LGBTQ+. Queremos mostrar a construção de diferentes identidades”, afirma o diretor Vinícius.

De acordo com a Pesquisa de Emprego e Desemprego do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE/PED), os trabalhadores negros mulheres e homens representam, na proporção de ocupados, 48,2% da força de trabalho. Entretanto, dados revelam que a renda mensal média de um negro em função de algum cargo empregatício, considerando o salário bruto, é de pouco mais da metade (57,4%) do ganho recebido pelos funcionários brancos. Devido a isso, o foco atual é o tamanho do ajuste a ser feito agora, um método a ser aplicado e seus impactos para os empregados e a economia popular.

Segundo o documento “Desenvolvimento humano para além das médias”, estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), órgão da ONU, em parceria com a Fundação João Pinheiro e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a renda domiciliar per capita média da população branca era mais que o dobro da população negra: R$1.097,00 para R$ 508,90. Isso resume bastante sobre as desigualdades raciais e o mínimo que avançaram nas últimas duas décadas.

Vários são os fatores que levam os negros a buscarem alternativas ao mercado de trabalho tradicional. Influência familiar, atributos e expectativas pessoais, insatisfação com o emprego e oportunidades de negócio, além do racismo corporativo, são algumas das motivações que constam como pesquisa para aderir negócios próprios. “Você entrega currículo, quando chega no lugar, as pessoas te olham, dão aquela desculpa. Você nunca é qualificada. Falam até do meu cabelo”, diz Eliad da Silva, funcionária do foodtruck Acarajé da Yayá, que relatou algumas situações em que sofreu racismo no mercado de trabalho.

A assistente administrativa Camila Alves, 43 anos, também passou por uma situação de racismo corporativo. Apesar de encaixar em todas as exigências da vaga para auxiliar adminstrativa em um posto de combustíveis, o dono do estabelecimento não aceitou sua candidatura ao cargo. “Eu tinha todos os requisitos para a vaga, mas a minha aparência falou mais alto que meu conhecimento. Infelizmente em pleno século 21 as pessoas ainda são racistas e não conseguem reconhecer um ser humano e suas diferenças”, questiona.

Além dos obstáculos recorrentes a investir no mercado e manter seu empreendimento, os empresários negros sentem as circunstâncias das relações raciais. O fator raça limita estes empreendedores a terem acesso a recursos financeiros por conta de dificuldades em relações com fornecedores, clientes, concorrentes ou até mesmo com funcionários, como no caso de nigeriano Chidera Ifeanyi.  Dono do restaurante Simbaz, localizado na 412 Sul, reúne a culinária de 54 países do continente africano em sua proposta gastronômica.

“O racismo é velado. Uma empresa de grande porte, multinacional, onde a gerente de marketing atende meu vizinho mas não me atende. Entendeu? Mesmo o vendedor já vindo aqui, já falando com ele e o supervisor. ‘Vamos lá, vamos agitar o bar, o que a gente pode fazer pelo bar?’ Ela faz pelos outros vizinhos, mas não faz por mim nada. E assim não tem nada que ela possa dizer que seja, então eu vejo como um racismo institucional”, enfatiza Chidera.

O Simbaz, restaurante de Chidera, na 412 Sul, tem a culinária dos 54 países africanos. . Foto: Bárbara Cabral.

PROGRAMA AFROEMPREENDEDOR

No Distrito Federal, o afroempreendedorismo tem ganhado força na agenda pública desde 2015 com a Lei n. 5.447, de 12 de janeiro de 2015, e regulamentada pelo Decreto no 36.680, de 18 de agosto de 2015, que institui o Programa Afroempreendedor na capital federal. “Essa lei objetiva fortalecer o empreendedorismo na população negra, ao atender as necessidades de formação, inclusão e fomentar o protagonismo, combatendo as desigualdades de gênero entre a população negra ”, diz Victor Nunes (foto), subsecretário de Igualdade Racial.

Victor Nunes ao centro. Foto: Arquivo/SEDESTMIDH

Com foco em quatro iniciativas produtivas no âmbito da economia criativa, da economia solidária, cooperativismo e do setor de serviços, micro ou pequenas empresas que são lideradas por pessoas que se declarem como negros e negras podem participar do programa, desde que seus estabelecimentos sejam registrados no DF, por meio de quatro princípios: trabalho cooperado, solidariedade, democracia, empreendimentos auto gestionários.

Também é exposto o incentivo à participação de feiras no mês de novembro, intitulado Mês da Consciência Negra (devido ao dia 20 de novembro), como a Feira de Economia Solidária e a Feira do Afroempreendedor. Ambas são voltadas exclusivamente para membros do Programa Afroempreendedor do Governo de Brasília, sob responsabilidade da Secretaria Adjunta de Política para as Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos.

“Toda vez que tem algum evento com essa temática na cidade, meu lucro dobra”, relata a quilombola mineira Sirlene Barbosa (foto), de 36 anos, que o espaço não apenas dá mais visibilidade ao trabalho com roupas  e artesanato africanos, mas também impulsiona as vendas. Há quase três anos em Brasília, Sirlene começou com peças comuns, como blusas com aplicação de tecido afro. A procura por seus serviços cresceu, e ela se adaptou ao mercado com vestidos afro e roupas feitas sob encomenda.

Com produtos exportados a países como Alemanha, Itália e México, a empresária é nativa de uma comunidade quilombola no norte de Minas Gerais, vive da arte negra e qualifica esse ambiente como um modo de empoderamento e busca da ancestralidade. “Costumo dizer que a arte negra não é só uma marca, é um símbolo de resistência, de luta, de cultura, de tradição e de valorização. Nós, afro-brasileiros, ao vestirmos uma roupa com essa temática, estamos fazendo uma conexão entre o Brasil e a nossa ancestralidade. É uma forma de mostrar de onde viemos e o que isso significa para a gente”, alega Sirlene, que também é mestre em comunidades tradicionais negras pela Universidade de Brasília.

A nativa quilombola Sirlene Barbosa produz roupas com vistas à exportação. Foto: Arquivo.

PERFIL DO AFROEMPREENDEDOR NO DF

Apesar de 58% da população ser negra, o empreendedorismo no Distrito Federal ainda é de uma maioria não negra. É o que diz a pesquisa realizada pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (CODEPLAN), ao desenvolver o estudo “Perfil do Afroempreendedor no Distrito Federal”, em colaboração com a Secretaria de Estado de Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (SEDESTMIDH).

Os dados coletados mostram a distribuição racial no DF, atribuindo consequentemente aos recursos dos mapas de distribuição de renda e raça, ou seja, os níveis de classe. Dessa forma, com a análise dos mapas, conclui-se que no Distrito Federal há mais negros (pretos e pardos) entre os pobres, o que traz à tona a desconstrução de uma política pública excludente e, sendo assim, há a busca do fomento ao afroempreendedorismo na capital federal.

“Políticas estatais possuem um papel fundamental, pois viabilizam os recursos precisos para esses empreendimentos e exigem diretrizes específicas para alcançar resultados mais efetivos”, afirma Lineker.

Um exemplo de diretrizes específicas é a Feira Coisa de Preto, localizada na 408 Norte, no qual possui como um dos organizadores Pablo Feitosa. “Cada vez mais empreendedores que trabalham a temática têm participado. O evento tem mudado a vida das pessoas. Elas têm os negócios delas, mas, em dias de exposição, movimentam ainda mais o mercado ao aumentar a cadeia de trabalho”, afirma.

Promovida em prol das políticas públicas do DF, empreendedores negros se reúnem na feira para expor produtos tradicionais da cultura negra e que remetem ao estilo africano. Com isso, geram alternativas para o fortalecimento das próprias atuações na economia do DF. “No momento em que pararmos de consumir produtos e serviços de empresas que promovem indiretamente a desigualdade, forçamos o sistema a se adaptar à real necessidade desse público, que está em busca de melhor representatividade e espaços.”, enfatiza Mariana Alves, estudante de Jornalismo e frequentadora assídua da Feira Coisa de Preto.

Feira Coisa de Preto em 2017. Foto: Reprodução/Facebook

PERSISTÊNCIA

Dentre os grupos vulneráveis economicamente, o negro é o principal e o mais significativo, são historicamente a base da elevada pobreza e da classe trabalhadora brasileira. Portanto, as retrações econômicas e limitações de créditos afetam a essa população diretamente. Tratando-se do caso do nosso país, as diferenças de renda entre negros e brancos, mulheres e homens, são espantosas. Dessa forma, provocam-se ainda mais as buscas para soluções por uma igualdade, com a procura em reordenar a responsabilidade estrutural do país como construção histórica.

No Distrito Federal, foi necessário que realizasse o convênio de linhas de créditos para o financiamento de Afroempreendedores, atribuída por meio da Subsecretaria de Igualdade Racial. “Esta competência colabora para o combate a desigualdades racial em relação aos microempreendedores individuais que sentem dificuldade ao tentarem obter empréstimos financeiros para realizar suas atividades econômicas”, explica Victor Nunes, subsecretário.

“É um cenário que se firma cada vez mais. Temos verificado um aumento contínuo de empreendedores negros principalmente no setor de cosméticos e vestuário. Com isso, vemos cada vez mais produtos direcionados para a população afro-brasileira”, reitera Adelmir Santana, presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Distrito Federal (Fecomércio – DF).

O afroempreendedorismo é uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento econômico e social do DF e entorno, além de ser visto como uma solução precisa para inserção social da população negra na economia. E ainda há muito o que ser feito, contudo as circunstâncias de anularem o projeto parecem possíveis com a nova gestão que começará em 2019. Até o fechamento desta matéria, não houve resposta da assessoria do governador eleito, Ibaneis Rocha (MDB), sobre o futuro do afroempreendedorismo na capital federal em sua gestão.

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