Acordo Embraer-Boeing ameaça indústria nacional

0

O Departamento de Estudos Intersindicais de Estatística e Estudos Econômicos (DIEESE) criticou a falta de transparência e mostrou preocupação com as consequências do possível acordo entre Embraer e Boeing para a indústria brasileira de aviação e soberania nacional. Para o DIEESE, a negociação “coloca em risco a sobrevivência dos segmentos da aviação executiva e defesa”, pois os investimentos em pesquisa e inovação ficariam comprometidos com a segmentação da Embraer.

Quanto à aviação comercial, setor mais lucrativo da empresa brasileira, a tendência é de ser gradualmente incorporada e dissolvida pela Boeing.

A possibilidade de acordo entre as duas empresas foi divulgada, inicialmente, em 21 de dezembro de 2017, pelo Wall Street Journal. O jornal estadunidense publicou que a Boeing tinha interesse em fazer parcerias, comprar parte e até adquirir o controle da brasileira Embraer.

.As negociações entre as gigantes da aviação evoluíram e, em julho deste ano, foi anunciado um acordo preliminar para a criação de uma joint venture (sociedade para formar uma terceira empresa) voltada ao segmento comercial. A Boeing teria 80% das ações e o controle da nova companhia..

A Embraer foi criada em 1969, como empresa estatal mista, com sede em São José dos Campos, onde opera sua maior planta industrial até hoje. Em 1994, não resistiu à onda de privatizações e foi arrematada por um consórcio entre instituições financeiras estrangeiras e fundos de pensão nacionais. Nos anos 2000, a Embraer emitiu ações na Bolsa de Nova York e intensificou sua desnacionalização.

Há um mecanismo, no entanto, que garante a influência do governo federal na empresa: a golden share (ação de classe especial). Com ela, o governo tem poder de veto em questões estratégicas, desde a mudança do logotipo até a transferência de controle acionário, além da criação ou alteração de programas militares.

Além disso, a Embraer recebe apoio direto da União via empréstimos do BNDES (R$ 8,2 bilhões entre 2010 e 2016) e também via demanda no setor de Defesa.

.A Embraer é a terceira maior exportadora do Brasil, atrás apenas da Vale e Petrobras, e a terceira maior empresa de aviação do mundo, depois da Airbus e Boeing. Em 2017, teve receita de R$ 18,7 bilhões e lucro líquido de R$ 795,8 milhões.

Quando a primeira notícia da negociação veio à tona, o governo federal declarou ser contra repassar o controle da Embraer à Boeing. No entanto, após os detalhes anunciados, não houve mais posição pública sobre o assunto, ainda que seja parte diretamente interessada e tenha poder de veto.

Sociedade ou venda?

A nota do DIEESE questiona a forma da joint venture anunciada, pois não se trata apenas de combinação de negócios, mas sim da aquisição de 80% do negócio de avião comercial da Embraer. A joint venture teria duração de dez anos e, ao final do período, ficaria garantida a compra dos 20% restantes.

As bem-sucedidas aeronaves comerciais da Embraer – líder no mercado de jatos de até 150 assentos – passariam a integrar o portfólio da Boeing.

Nesta nova empresa, não haveria golden share (poder de veto), ou seja, o governo não terá influência nenhuma. O risco é de, ao fim dos anos, a aviação comercial brasileira ser extinta, incorporada pela Boeing.

Defesa e soberania nacional

Em 2017, a aviação comercial da Embraer correspondeu a 58% do faturamento, enquanto os segmentos de Defesa e executivo representaram 26% e 16%, respectivamente. Como o acordo prevê a segmentação desses setores, que hoje são complementares em termos de pesquisa e inovação tecnológica, a sobrevivência da aviação executiva e de Defesa fica comprometida, segundo o DIEESE.

“Serão suficientes os 20% de participação da Embraer na joint venture para sustentar a aviação executiva, cujos projetos são tão caros quando os da aviação comercial e o custo das aeronaves é muito menor? Esse percentual será suficiente para manter o segmento de defesa relacionado diretamente à soberania nacional?”

Patrimônio tecnológico

A nota do DIEESE ainda indica que não há garantias de proteção às conquistas tecnológicas e as patentes da Embraer. “Assim, deve-se questionar se os 49 anos de investimentos da empresa em inovação não serão adquiridos gratuitamente por outra companhia.”

DEIXE UMA RESPOSTA

Envie o comentário
Por favor, coloque seu nome aqui