A saga de uma estudante da universidade pública

0
Foto por Henrique Nagae

As dificuldades de se manter no ensino superior

por: Devana, Henrique, Júlio e Wanderson.

Foto por Henrique Nagae
Foto por Henrique Nagae

No primeiro semestre de 2018 a caloura Yasmim Cândido Domingos era a primeira pessoa a chegar na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, abrir a sala do CACOM (centro acadêmico do seu curso), e esperar a hora da aula. Mesmo sendo uma caloura de jornalismo entusiasmada e engajada, não era exatamente o ânimo que a fazia acordar todos dias às 03h30 da madrugada para pegar o ônibus que saía às 4h20 de Monte Alto (GO) e chegar às 7h00 na rodoviária de Brasília. Acompanhar os primeiros funcionários que costumam chegar à UnB no ônibus 110 quase vazio era a parte tranquila de seus dias. “Se eu pegasse em outro horário, chegava muito atrasada, até porque a fila do 110 na rodoviária é imensa […] A única chance que eu tinha era pegar o ônibus muito cedo”, conta Yasmim. De fato, nos horários de pico, a fila do ônibus que vai para a UnB pode chegar perto da plataforma oposta da rodoviária.

Yasmim morava com os avós em uma chácara, e por ser estudante do período diurno e ter a grade aberta, ficava na UnB até as 18h, retornando para Monte Alto somente por volta das 21h. Todos os dias seu avô a esperava na parada de ônibus, que fica a 10 minutos de sua casa e o trajeto, empoeirado, fazia-o passar mal. A avó é costureira autônoma e recebe cerca de R$500,00 por mês, dos quais gastava R$ 380,00 só com as passagens e R$100,00 para a alimentação da neta. Mas havia uma luz: tentar uma bolsa do Auxílio Socioeconômico da UnB.

Esse foi o início de uma nova saga, talvez ainda mais árdua que as viagens diárias de Monte Alto: provar para a Diretoria de Desenvolvimento Social (DDS, órgão da UnB responsável pela gestão dos Auxílios) suas dificuldades financeiras, de moradia e locomoção. “É muita burocracia! Eu tinha que vir aqui às vezes só pra entregar documento, e era uma coisa muito, muito difícil mesmo”, conta. “Eu não consegui vaga na CEU, que é a casa do estudante aqui, o que eu acho estranho, porque tem gente lá que não precisa de auxílio. Você vê que tem carrões lá no estacionamento, de alunos que moram lá. Se eles têm condição de comprar um carrão, eles têm condição de pagar um apartamento… enquanto tem gente que realmente precisa e não consegue”, denuncia a universitária.

Foto por Henrique Nagae

Ao invés da moradia estudantil, Yasmim conseguiu a pecúnia de R$530,00 mensais do auxílio-moradia, a custo de um complicado processo para provar que sua avó não comprou a chácara em que eles moravam, mas trocando por sua casa em Brazlândia com um tio diabético que decidiu morar na cidade. Agora ela mora numa pensão na 704 sul com o amigo Manu, também estudante do 2º semestre de jornalismo, e que também morava longe, em Posse, município de Goiás. Eles se conheceram no primeiro dia de aula e imediatamente se tornaram grandes amigos. Manu indicou Yasmim para morar na pensão onde estão agora, pois eles não aceitam desconhecidos, e ela foi aceita. Nessa pensão, todos os moradores tem seu próprio quarto e banheiro, e Yasmim e Manu dividem a casa com mais três pessoas. No começo, os moradores da pensão dividiam as compras, mas agora cada um compra os próprios mantimentos. Apesar disso, a convivência é tranquila.

  A dificuldade agora é pagar os R$800,00 de aluguel enquanto recebe apenas os R$530,00 da pecúnia. Nessa condição, Yasmim hoje procura aluguéis mais baratos. Tendo que optar entre proximidade ou preço acessível, ela encontrou um aluguel de R$550,00 mensais em Águas Claras e pretende se mudar no mês que vem, com relutância: “Mesmo sendo longe da faculdade, o que eu não queria, é bem mais barato, então pensei: ‘Véi, é lá que eu vou morar.’”

Yasmim fica em tempo integral na universidade. Podendo contar com auxílio-alimentação, que lhe permite fazer refeições gratuitamente no Restaurante Universitário, ela toma café da manhã, almoça e janta na universidade, aproveitando o tempo livre para ler, estudar, passear pela UnB, interagir com os colegas, matar o tempo no CACOM, seu lugar favorito, ou resolver algum assunto, pois, engajada como é, está sempre envolvida com as atividades do Centro Acadêmico. No segundo semestre de 2018, participou pela primeira vez da chapa única que concorria à diretoria do CACOM, cujas eleições, pela segunda vez, não obtiveram quorum para serem legitimadas.

Nesta semana, além das demandas da Semana Universitária, Yasmim está às voltas com um novo projeto: encontrar um estágio para ajudar a avó com as despesas. Inscreveu-se em várias opções disponíveis, cadastrou-se no CIEE e procurou oportunidades em lojas perto de sua casa. Uma fagulha de esperança surgiu quando ela conseguiu encontrar uma vaga na própria Faculdade de Comunicação. Após preencher a ficha, entretanto, descobriu que não conseguiria a vaga porque não tinha título de eleitor. Yasmim chorou, enxugou as lágrimas e tentou novamente. Procurou em outras secretarias da universidade, que respondiam com negativas: “Não vai dar”. “Os horários não batiam”.

A universitária passa o dia toda na UnB, onde faz as refeições de forma gratuita e tem acesso a bibliotecas e salas de estudo, Foto por Henrique Nagae

O sobrenome do pai dela é Domingoz, mas o dela foi registrado como Domingos, com “S”. Esse pequeno detalhe é uma das principais fontes de transtorno que privou Yasmim de algumas oportunidades do estágio: a mãe teria que arrumar a própria certidão de nascimento e a identidade para ratificar os documentos da filha. Sem cartório por perto para resolver essa questão, a família teria que ir até Sobradinho, mas não tendo tempo nem meios para isso, ficou tudo como está. “Eu pensei em arrumar o título depois de arrumar meu nome. Acabou que eu não arrumei e descobri agora que eu preciso muito do título”, desabafa.

Os pais de Yasmim moram em uma casa a 30 minutos da chácara em Monte Alto onde ela morava com os avós. Seu pai, mesmo tendo carro, não se dispõe a ajudar a mãe, que cuida de duas crianças, enquanto sua avó trabalha, seu avô não tem condições para fazer e Yasmim não consegue ir até Sobradinho por conta da rotina acadêmica. Mesmo com todas as dificuldades, a estudante persiste: “…eu sou muito difícil de desistir das coisas…” Chegou a pensar em trancar a matrícula por causa da idade avançada do avô, e por ter descoberto que sua avó acumulou, sem saber, uma dívida de dois mil reais.

Yasmim vê nos programas como o PAS, os sistemas de cotas e a Assistência Estudantil uma forma necessária de inclusão social. Não ligando para críticas, a estudante explica: “Eu acho que essas pessoas (as que criticam programas de assistência social) não precisam disso, elas criticam porque não vivem isso, elas não sabem o que é isso, elas sequer entendem o que é isso. Então é muito fácil você criticar uma coisa que você não faz parte, um mundo que você não faz parte. ‘Ah, eu acho sacanagem essa coisa de auxílio’, mas ela não precisa de auxílio, ela não mora longe, ela tem um carro, então isso não faz parte do mundo dela. […]eu evito essas pessoas que têm a cabeça muito fechada e que vivem no mundinho delas, então não ligo muito pra esse tipo de opinião e acho que elas só entenderiam, só aceitariam, se elas estivessem passando por isso, se elas vivessem isso, mas como não vivem, não importa pra elas.”

De acordo com o CESPE, foram disponibilizadas 2127 vagas para ingressar na UnB pelo subprograma de 2015 do PAS, sendo que 1083 delas são destinadas a estudantes de escola pública (aproximadamente 50,92%), 113 para estudantes negros (aproximadamente 5,31%) e 931 são vagas universais (aproximadamente 43,77%).

Yasmim afirma que o auxílio na UnB deveria ser mais divulgado. Em seu projeto para a Semana Universitária, descobriu que estudantes do ensino médio, mesmo querendo muito entrar na UnB, prefeririam não se dar ao esforço porque sabiam que não teriam condições de se manter na instituição pela dificuldade de conseguir o auxílio: “Elas sequer sabiam que poderiam conseguir o RU de graça. […] O que é engraçado, porque a universidade pública não te dá condição de fazer, de tentar UnB. E aí eu mostrei pra ela que tem auxílio e que devia sim ser mais divulgada essa questão dos auxílios, porque tem muita gente que não vai fazer por causa disso, por que não sabe. […] Eu acho devia muito ter isso porque, por exemplo, sobre a UnB, principalmente a UnB, porque as pessoas realmente acham que a UnB é bagunça total, inclusive a minha família achava que era só sexo e drogas. E elas não focam no que realmente é importante, como a questão dos universitários e sobre as aulas. Tem gente que não conhece o que é UnB”.

Gráfico por Wanderson Ramos

“Esse projeto que tô fazendo é justamente sobre isso, os múltiplos olhares na universidade. E eu acho muito incrível, porque é uma chance de levar pras pessoas o que é realmente a UnB, não é só PDS, não é só HH […] E as pessoas deviam saber disso, saber tudo que envolve a universidade, tipo o auxílio, devia ser levada às pessoas, não só essa imagem que a UnB tem. Fazer projetos, ir nas escolas de ensino médio, principalmente de ensino médio, que é quando a galera tá se formando, então é uma motivação, porque quando eu fiz o projeto, eu fui lá, apresentei e me senti muito importante porque eu motivei as pessoas a virem pra UnB, pessoas que queriam, mas que tem certeza que não viriam porque elas não tinham condição de vir pra UnB”. De acordo com o INEP de 2016, mesmo tendo mais de 2 milhões de alunos matriculados em universidades públicas, há uma evasão escolar total de mais de 450 mil alunos no mesmo ano, resultando em evasão de cerca de 19% dos alunos em instituições públicas no Brasil todo.

 

Gráfico por Wanderson Ramos.

Edição: Caru Schwingel.

DEIXE UMA RESPOSTA

Envie o comentário
Por favor, coloque seu nome aqui