A precariedade do Estratégia Saúde da Família no DF

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Após cerca de um ano da implementação do Estratégia Saúde da Família no DF, os pacientes das Unidades Básicas de Saúde ainda reclamam da demora e da ineficiência do atendimento. Mas a Secretaria de Saúde afirma que houve melhoria no acolhimento e resolução dos casos.
Ana Clara Cabeceira, Ana Luísa Corrêa, Ellen Naisla e Wanessa Alves. 

A adoção da Estratégia Saúde da Família (ESF) no DF vem dividindo opiniões, tanto entre as equipes da ESF quanto entre os pacientes. Uma das principais reclamações entre os usuários do sistema é a burocratização do atendimento. A ESF é um programa nacional de atenção à saúde que visa melhorar o atendimento à população na rede pública de saúde  e, assim, desafogar os hospitais e as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Essa iniciativa tem como ponto central o fortalecimento do atendimento primário, que pretende o acolhimento de pessoas com doenças menos graves. O programa foi adotado pelo Ministério da Saúde em 1994, mas no Distrito Federal sua implantação é recente, tem cerca de um ano.

O Estratégia Saúde da Família é resultado de uma longa trajetória governamental de implementação de um sistema que melhor atenda à população que necessita do Sistema Único de Saúde, o SUS. Em 2012, foi publicado pelo Governo Federal o Plano Nacional de Atenção Básica (PNAB), que organizou a forma de atendimento do Estratégia.

O documento informa que o atendimento das unidades de saúde deve ser feito por meio do trabalho de equipes formadas por, no mínimo, médico generalista ou especialista em Saúde da Família ou médico de Família e Comunidade, enfermeiro generalista ou especialista em Saúde da Família, auxiliar ou técnico de enfermagem e agentes comunitários de saúde, podendo acrescentar a essa lista profissionais de saúde bucal com o mesmo treinamento para atuar no Saúde da Família.

As equipes de trabalho do Estratégia atuam nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), mais conhecidas como postos de saúde. O foco dessas equipes é a atenção primária à saúde. Estipulou-se, no PNAB, que cada equipe é responsável por, no máximo, 4000 pessoas.

Anteriormente, no sistema tradicional, havia especialidades médicas nos postos. Por exemplo, se uma criança precisasse de acolhimento, ela seria atendida por um especialista, o pediatra. No novo sistema, os médicos da família prestam serviços a demandas plurais, deixam de ser especialistas. O médico pediatra realiza um treinamento e passa a atender como médico da família. Nessa nova realidade, ele poderá tratar idosos, gestantes, crianças, variados tipos de demandas médicas.

Foi o que aconteceu com a doutora Ionadja Maria de Brito, de 37 anos. Médica do sistema de saúde pública do Distrito Federal há cinco anos, ela atua como médica da família há aproximadamente um ano. Especialista em pediatria, hoje Brito trabalha como médica da família. “À princípio eu me senti incomodada com essa interferência do governo no nosso trabalho”. Brito avaliou como fraco o treinamento fornecido pelo governo para os médicos atuarem no Estratégia. “Quando tenho dúvidas sobre outras especialidades que atendo, tiro dúvidas com colegas ou recorro a livros”.

No entanto, ainda há a possibilidade de o usuário do sistema público de saúde receber tratamento de um especialista. Isso acontece quando o paciente necessita de auxílio em uma demanda específica. Pode-se usar como exemplo uma mulher que vai ao posto de saúde queixando-se de nódulos nos seios. Ao examinada pelo médico da família e feitos os exames, se for diagnosticado um possível tumor, essa paciente é encaminhada ao hospital para fazer o devido tratamento. Essa é a atenção secundária. Caso ela necessite de fazer uma cirurgia, que será feita por especialista, trata-se da atenção terciária.

A coordenadora de atenção primária da Secretaria de Saúde do DF, Alexandra Moura, enfatiza que essa reorganização do Sistema Único de Saúde visa a integração dos sistemas de atenção primária, secundária e terciária. “O usuário não fica mais em um trajeto onde fica peregrinando fora de uma linha de cuidado”.  

Moura ainda ressalta que o Estratégia da Saúde da Família objetiva a aproximação com o usuário e assim conseguir solucionar seus casos com mais rapidez e eficiência. “A gente não trata mais de pessoas apenas, mas a gente traz famílias como proposta de intervenção”, afirma, “Com isso, a gente consegue ter mais soluções para os problemas que a comunidade apresenta”.

A tese de Alexandra Moura é confirmada por parte dos usuários do Sistema. Marilene Brandão da Trindade, cuidadora de pessoas com deficiência, de 43 anos, é paciente do sistema de saúde há 15 anos. Trindade afirma que o atendimento agora é mais rápido: “Antes nós esperávamos meses por atendimento”. Entretanto, a cuidadora também aponta falhas na Saúde da Família. “Sofri um acidente e minha equipe estava sem médico. Acabei sendo atendida por um médico de outra equipe, mas agora não consigo me consultar com ele de novo por ele ser de outra equipe. O sistema é mais burocrático”.

O Estratégia vem sendo implementado aos poucos na saúde pública do Distrito Federal. Em 2016, o Conselho de Saúde do Distrito Federal decidiu, por meio da Resolução 465, a instauração do ESF na saúde pública do DF. Com isso, os médicos passaram a fazer o treinamento para serem médicos da família. No entanto, esses profissionais puderam optar continuar trabalhando com suas especialidades ou fazer o treinamento para migrarem para o atendimento de saúde da família, realidade que provocou a saída de vários profissionais das UBS’s.

A enfermeira da UBS 03 do Guará II, localizada na QE 38, Ana Maria Moraes Muniz Pádua, de 38 anos, afirma que com essa transição muitos médicos saíram da unidade. Ela ainda revela que alguns médicos têm certa resistência em aderir ao programa pelo fato de serem especialistas. “Na minha opinião, estou de acordo. Realmente acho que eles não têm que aderir mesmo não, porque a formação deles não é essa”, declara, “Para estar trabalhando neste trabalho, de programa saúde da família, tem que ter médicos especialistas nisso, com residência, com pós [graduação] nessa área da saúde da família”.

Entretanto, conforme Alexandra Moura, cerca de um quinto dos médicos especialistas da rede pública passaram pela capacitação, oferecida pela Secretaria de Saúde do DF, e se tornaram médicos da família. A capacitação foi realizada com aulas teóricas, com vários módulos que abrangiam desde hipertensão e diabetes à saúde da criança e todas as áreas pertinentes na atenção primária. Já as aulas práticas foram realizadas através do matriciamento, os profissionais que estavam nessa transição faziam atendimento conjunto com profissionais da atenção secundária. Passadas essas fases da capacitação, os profissionais de saúde realizaram uma prova, realizada pela Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciências da Saúde (Fepecs) e os aprovados neste processo passaram a integrar as equipes de atenção primária.

A gerente da UBS n° 02, antigo Centro de Saúde 13, da Asa Norte, localizada na SQN 115, Ana Carolina Tardin conta que, pelo menos na unidade em que trabalha, não tiveram problemas agravados por essa transição. Ela confirma que o posto de saúde continua com as taxas de resolutividade estáveis. “Comparando com antes, a gente manteve estável a taxa de encaminhamento de pacientes”.

Tardin reconhece que no começo da implementação do programa, havia problemas com os pacientes, pois estes não entendiam a lógica do funcionamento do ESF. “Quando a gente começou a implementar, bem no início em janeiro/fevereiro, a gente tinha muito problema com os pacientes, eles não entendiam a lógica da estratégia porque uma pessoa colheu uma preventiva uma vida inteira com um ginecologista, por exemplo, agora tinha que ir para outro médico. Então eles questionavam muito”.

(Segundo a Gerente da UBS, Ana Carolina Tardin, embora a placa da entrada esteja indicando “Centro de Saúde n° 13”, há pouco tempo o posto se tornou UBS n° 02, porém a placa ainda não foi trocada. A UBS está localizada na SQN 115/ Foto: Wanessa Alves)

Embora a gerente da unidade informe que não tem acontecido problemas com os pacientes e que os conflitos que ocorreram foram em virtude de o Sistema ser novidade, pacientes atendidos na UBS reclamam da desorganização, de forma geral. Maria Cimélia, moradora da Asa Norte, comenta com indignação a demora no atendimento. “Olha, eu cheguei aqui não era nem uma hora da tarde. Quando cheguei, ele mandou eu vir aqui nessa porta 17. Esperei duas horas sentada lá. Depois eu fui lá e me falaram que a equipe já tinha atendido. Por que não avisaram que a equipe tinha atendido de manhã?”.

Pacientes e profissionais de saúde que atendem na UBS’s têm apontado falhas no sistema. Embora o Estratégia Saúde da Família receba elogios e esteja em fase de implementação, desde a publicação da Resolução 465 do Conselho de Saúde do DF, os problemas ainda são visíveis. Mesmo com as equipes incompletas, os profissionais são otimistas em relação ao futuro do projeto. A técnica em enfermagem Marta Simone Ramos Alves, que é servidora pública na Secretaria de Saúde há 25 anos, aponta que a ideia é boa, mas deve haver melhorias. “Se o sistema for melhorado, ele vai permanecer. É um programa do Governo Federal, não acredito que com a mudança do governo do DF, a nova gestão vá simplesmente extinguir isso. Mas tem que ter uma base, tem que ter uma formação melhor das equipes. Quando a equipe não está completa, falta médicos e outros profissionais, os pacientes ficam desassistidos até que isso se resolva. Eu acredito que o sistema é bom sim, mas tem que ter uma melhor infraestrutura”, comenta.

De acordo com dados do Ministério da Saúde a respeito do Programa Estratégia Saúde da Família, o “Distrito Federal apresenta cobertura da Estratégia Saúde da Família de 41,88%, e de Atenção Básica de 55,49%. O Brasil apresenta cobertura 64,9% da população coberta por Equipes de Saúde da Família. 75,67% da população coberta pela Atenção Básica, considerando-se, além das equipes de Saúde da Família, equipes equivalentes formadas por clínicos gerais, ginecologistas-obstetras e pediatras”.

Equipes de Saúde da Família       Atenção Básica
UF População Nº Equipes de Saúde da Família Estimativa da população coberta Percentual de cobertura população estimada Estimativa da população coberta Percentual de cobertura população estimada
DF 3.039.444 369 1.273.050 41.88% 1.686.480 55.49%

(Fonte: Ministério da Saúde)

A Secretaria de Saúde do DF prevê, para os próximos anos, a contratação de mais profissionais para compor o programa Estratégia da Saúde da Família, além da continuação da capacitação dos profissionais que já se encontram na rede pública de saúde para a melhoria da prestação de serviços.

Os elogios, sugestões e reclamações podem ser feitos na ouvidoria da Secretaria de Saúde, pelo site ou pelo telefone 156.

 

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